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O essencial é invisível aos olhos: como a leitura devolveu a voz a meninos em Jaboatão dos Guararapes 



 
Uma tarde de quinta-feira chuvosa na Região Metropolitana do Recife costuma convidar ao recolhimento. Mas, dentro das paredes do Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) de Jaboatão dos Guararapes, o clima daquele 31 de março era de uma espera ansiosa. Na pequena sala da administração — pequena demais para o tamanho dos sonhos que ali seriam partilhados —, o Projeto Pareia chegava ao oitavo e último encontro de um ciclo que havia começado em 24 de fevereiro e florescido em silêncio. 

Lucas*, Gabriel* e Matheus* estavam no campo, disputando uma pelada, quando a notícia chegou: as "tias da leitura" haviam voltado. Não hesitaram. Abandonaram a bola, correram para o banho e vestiram, junto com a camisa limpa, o compromisso da tarde. Sabiam que o desfecho de uma jornada começada semanas antes ganharia ali seus contornos finais, nas páginas de um aviador francês que, décadas atrás, já ensinava que o essencial é invisível aos olhos. 

O Projeto Pareia — Cultura de Paz, Literatura e Pertencimento nasceu em 2023, no Núcleo de Justiça Restaurativa da Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ) do Tribunal de Justiça de Pernambuco, com o eixo Jovem Aprendiz. Em 2024, ganhou o eixo Socioeducativo, levando os Círculos de Construção de Paz e Leitura para dentro dos CASEs e CASEMs de Pernambuco. Em 2026, um terceiro eixo, o Protetivo, voltado para crianças e adolescentes em acolhimento institucional, amplia ainda mais o alcance da iniciativa. 

O projeto atende diretamente às diretrizes do SINASE e à Resolução CNJ nº 225, que dispõe sobre a Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Judiciário, e está em consonância com o Plano Nacional de Fomento à Leitura em Ambientes de Privação de Liberdade e com o  Eixo 2 da Agenda Justiça Juvenil (Estratégia de Nacionalização 2026-2027),funcionando como ferramenta prática para o alcance das metas de Direito à Cultura e para a difusão de metodologias restaurativas no sistema socioeducativo do estado. Entre 2024 e 2025, somente nas CASEMs do Recife, foram 18 Círculos de Construção de Paz e Leitura, beneficiando 56 adolescentes e jovens em cumprimento de medida socioeducativa nas unidades Harmonia, Iputinga e Areias. 

Mas nenhum indicador explica o que aconteceu, encontro após encontro, dentro daquela sala em Jaboatão. 

Um barbeiro, um pai e a raposa da página 80 

Ali, onde adolescentes de 12 a 17 anos incompletos cumprem medida socioeducativa de privação de liberdade, a realidade é crua: dos oito meninos que concluíram o ciclo quinzenal, apenas um lia com fluidez. Os outros soletravam, tropeçavam nas sílabas, precisavam de ajuda para completar um pensamento.

Mas o que lhes faltava em letramento formal sobrava em vontade. 

Lucas*, de 16 anos, é o barbeiro do grupo — aprendeu o ofício ali dentro e já faz planos para quando sair, em dois meses. "No momento não cobro nada, estou aprendendo. Mas quando sair daqui o professor disse que posso cobrar entre 10 e 15 reais pelo corte. E quando for melhorando, posso aumentar", contou, com o brilho de quem já enxerga o dia seguinte à internação. 

Antes de concluir a leitura das últimas dez páginas de O Pequeno Príncipe, as facilitadoras — Maria Teresa Sampaio e Kátia Assad, do Núcleo de Justiça Restaurativa da CIJ, e Mônica Andrea Velez, assistente social do Núcleo de Justiça Restaurativa da FUNASE — propuseram uma dinâmica de valores. Cada jovem escolheu uma palavra para expressar o que sentia. 

Fé, disse Daniel*: "Tenho fé em Deus". Perseverança, escolheu Matheus*, admitindo não saber o significado exato, mas sentindo que a palavra soava bem. Força, sentenciou Gabriel*, de 17 anos: "Tem que ter força para estar aqui dentro". 

A força de Gabriel* não é física. É a força de quem se tornou pai há pouco mais de dois meses e ainda não conhece o próprio filho. Ele "rodou" quando a namorada estava no oitavo mês de gestação, e hoje amarga a distância de um bebê cujo cheiro ainda não teve a chance de sentir. Para ele, o Círculo de Paz é o lugar onde a saudade dói menos. 

Quando a leitura começou, o silêncio se tornou sagrado. Tiago*, de 14 anos, venceu a timidez e o letramento insuficiente para arriscar a leitura de um parágrafo inteiro da página 80: "T-u-a ra-po-sa... as o-re-lhas de-la". Cada sílaba vencida vinha acompanhada de um esforço de encher os olhos e, em seguida, de um sorriso largo. Para quem ainda tropeça no desenho das letras, ler um clássico mundial em voz alta, sem gaguejar de vergonha, é uma conquista monumental — e talvez o primeiro ensaio de uma liberdade que a medida socioeducativa ainda não pode devolver. 

"Eu preciso aprender a ler tudo e bem" 


 

Ao final, veio a pergunta inevitável, lançada pelas facilitadoras: "O que vocês levam desses encontros?" Tiago* confessou que ia também pelos lanches e para "tirar umas coisas da cabeça, por ter que ficar lá na casa". Matheus* leva os conselhos e o aprendizado sobre o respeito. Gabriel* leva a memória do dia em que chegou triste e saiu alegre. Daniel* prometeu levar os resmungos, a pressa e os sorrisos de cada companheiro e facilitadora. Kátia Assad, emocionada, disse levar a alegria e a vida que os meninos ainda têm pela frente. Maria Teresa Sampaio revelou levar as particularidades de cada um, como "a pressa de Lucas*, que sempre tinha um cabelo para cortar".  

Mas foi de Gabriel* — o pai que aguarda o dia de abraçar o filho — a frase mais cortante da tarde. Questionado sobre o que precisaria mudar no projeto, ele não direcionou às facilitadoras nenhuma reivindicação.   Olhou para o livro e disse: 
"Eu. Eu preciso aprender a ler, para quando a tia abrir o livro e pedir para eu contar um pedaço da história. Quero ler tudo e bem. E entender tudo o que está escrito." 

O que se viu naquela sala não foi acaso, e os dados do próprio ciclo 2026.1 no CASE Jaboatão ajudam a explicar por quê. Dos oito encontros previstos, todos foram realizados, com 87,5% de frequência entre os adolescentes que se comprometeram com os encontros — bem acima da meta de 70% estabelecida pelo projeto — e 93,33% de avaliação positiva geral, contra uma meta de 80%. 

O cruzamento dos questionários aplicados antes e depois do ciclo mostra o tamanho da virada. No início, 56,25% dos participantes declaravam gostar de ler; ao final, 100% afirmaram ter aumentado o interesse pela literatura. Barreiras de leitura e compreensão afetavam mais da metade do grupo (56%) no começo do processo; 83,33% relataram melhora perceptível em ritmo e compreensão de texto. Na projeção de futuro, 83,33% dos participantes passaram a planejar os próximos anos — superando um cenário inicial em que parte do grupo simplesmente não tinha planos. E, em competências dialogais, metade dos adolescentes e jovens registrou melhoria direta na comunicação e na segurança para expor ideias. 

Se a estatística explica o alcance, foi a voz rouca e insegura de Tiago* soletrando a raposa de Saint-Exupéry, e o pedido simples e devastador de Gabriel* para "aprender a ler tudo e bem", que deram nome ao que os números só conseguem medir. 

O que vem depois de Jaboatão 


 

A meta para 2026.2 e 2027 é a continuidade e expansão do Projeto Pareia por meio da cooperação entre o Núcleo de Justiça Restaurativa da CIJ, o Núcleo de Justiça Restaurativa da FUNASE, a coordenação técnica dos CASEs e CASEMs e a Vara Regional da Infância e Juventude (VRIJ/1ª CJ) — esta última responsável pelo fluxo de inserção, no sistema PJe, da declaração de participação dos adolescentes, um reconhecimento formal ao esforço de quem, muitas vezes pela primeira vez, terminou de ler um livro inteiro. O planejamento, prevê a realização de um grupo socioeducativo por semestre, sempre com periodicidade quinzenal e oito encontros por obra lida — a próxima leva de títulos vem de uma doação da Companhia das Letras. E contemplar novos espaços por todo estado de Pernambuco é um pedido reiterado do atual coordenador da Infância e Juventude, desembargador Élio Braz Mendes. 

Para as facilitadoras da CIJ e para os oito meninos do CASE de Jaboatão, o ciclo já se encerrou. Mas a frase que Gabriel* levou daquela sala — o desejo simples de entender tudo o que está escrito — resume o que o Projeto Pareia tenta provar, um Círculo de cada vez: que a Justiça Restaurativa não se faz apenas com processos, mas com o resgate da dignidade através da palavra e do afeto, ao garantir aos adolescentes e jovens o direito ao livro e à leitura como caminho de recomeços, assim como é ofertado aos adultos.  Ali, mesmo que seja soletrando, o essencial pode ser lido — e sentido — com o coração. 
  
Os nomes dos adolescentes citados nesta reportagem, bem como de familiares menores de idade, são fictícios, em respeito ao sigilo previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Confira as fotos da ação AQUI
 
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Texto e Fotos: Ana Paula Santos/CIJ