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Por um internacionalismo indígena que exista dentro do território, mas além das fronteiras


O Dia Internacional dos Povos Indígenas foi instituído em 1994, pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de celebrar a contribuição e importância histórica dos povos originários ao redor do mundo. Desde então, o 9 de agosto é um lembrete de que, antes das intervenções coloniais e o estabelecimento das fronteiras que conhecemos hoje, já havia gente que cultivava terra, produzia conhecimento e se organizava em sociedade de maneira própria.

A História não é escrita de forma unilateral. Da mesma forma, assim ela não pode ser contada. Em todo o globo, comunidades indígenas atestam, vividamente, que a existência de nações inteiras antecede - e não se encerra - com a colonização. Antes da partilha da África ou do Tratado de Tordesilhas, civilizações nativas já mantinham suas formas de organização e afirmavam sua identidade. Embora o conceito do que é ser indígena possua critérios pontuais estabelecidos por diferentes instituições, o que une o guarani no Paraguai, um warao na Venezuela, um amazigh no Marrocos e um inuíte na Groenlândia não se resume a um verso normativo. Mesmo em continentes diferentes, esses grupos enfrentam pressões muito semelhantes, como a perda de território, a exploração indiscriminada dos recursos naturais e projetos de assimilação forçada que tentaram, em diferentes momentos históricos, apagar suas culturas.

É dessa luta coletiva que nasce a necessidade de um internacionalismo indígena. A cooperação mútua entre os povos, unidos pelo estabelecimento de um legado de continuidade e preservação que transcende o limítrofe, mas calcados na realidade dos seus respectivos territórios. Em um cenário global cada vez mais tensionado pelas mudanças climáticas, falar de um internacionalismo originário é colocar comunidades que já tratam do tema há séculos no centro desse debate; não limitados a um conceito de guardiões da floresta ou seres etéreos, mas sujeitos políticos ativos nas decisões internacionais. É preciso superar o mito do bom selvagem, que não sacraliza, mas restringe a subjetividade dessas etnias a um imaginário colonial que pouco representa a natureza tangível desses grupos. Muitas vezes, reduzidos a estereótipos, mitos ou figuras folclóricas, ignora-se que pessoas indígenas possam ser cidadãos com direitos concretos, interesses próprios e capacidade de intervir nas decisões do país.

O exemplo do povo Karaxuwanassu, em Pernambuco, mostra como essa união oportuniza maior espaço na esfera pública. O grupo nasceu na Região Metropolitana do Recife a partir da junção de indígenas de várias etnias originárias do nosso estado, bem como de países como Bolívia, Peru e Venezuela. Juntos, Xukurus, Karapotós, Wasukokais, Fulni-ôs, Pankararus, Wassu Cocal e Waraos criaram uma associação urbana, conquistaram terreno e estão construindo uma nova língua compartilhada. Especialmente em 2021, a Assikuka, associação referente à etnia, teve atuação fundamental para garantir o acesso dos povos indígenas à vacinação contra a Covid-19. Essa aliança prova que a identidade indígena não é algo parado no tempo, mas um processo vivo de recomposição e resistência que acontece hoje.

No fim, o internacionalismo, a coalizão e união entre povos é uma resposta coletiva para um problema comum na vivência indígena. O racismo ambiental, ou seja, a forma como a poluição, o desmatamento e o impacto dos grandes empreendimentos não atingem a todos da mesma forma, recai quase sempre sobre as comunidades que vivem da terra e dela dependem para sobreviver.

Por essa razão que o 9 de agosto tem alcance internacional. A data não celebra um recorte isolado de história local, mas uma condição compartilhada por centenas de povos em continentes diferentes, unidos pela experiência de resistir à tentativa de apagamento e pela tarefa diária de manter viva uma identidade que antecede as fronteiras que conhecemos hoje. Reconhecer esses povos é reconhecer parte da própria formação das nações onde vivemos, ainda que essa parte tenha sido, por muito tempo, deixada de fora do relato oficial. O que volta a nos unir é a certeza de que a luta pela terra, pela autonomia e pela dignidade ganha muito mais força quando compartilhada.

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Texto: Clarice Rabelo | Ascom TJPE
Imagem: Núcleo de Publicidade e Design | Ascom TJPE