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Jones Figueirêdo Alves
Saber e sabor têm a mesma raiz etimológica. Ambos derivam do verbo latino “sapere”, que significa, ao mesmo tempo, ter gosto e ter sabedoria. Essa coincidência não é apenas linguística; ela revela uma profunda intuição antropológica. O verdadeiro conhecimento precisa ser experimentado, degustado, assimilado.
Há saberes que apenas informam. Nutrem a memória, mas não transformam a vida. São como alimentos vistos através de uma vitrine, conhecemos sua aparência, mas jamais lhes sentimos o gosto. O verdadeiro saber, porém, possui sabor. Ele alimenta a inteligência, desperta a sensibilidade e fecunda a consciência.
Na tradição bíblica, essa associação aparece de modo admirável. O salmista convida: "Provai e vede como o Senhor é bom" (Sl 34,8). Antes de ver, é preciso provar. Antes da certeza intelectual, vem a experiência. Também os discípulos de Emaús só compreenderam plenamente quem era Cristo depois de "partir o pão", quando o conhecimento se tornou experiência viva.
Na filosofia, essa distinção também é conhecida. Há diferença entre conhecer uma verdade e vivê-la. Sócrates buscava um saber que modificasse a existência. Aristóteles distinguia a ciência da sabedoria prática. E Santo Agostinho recordava que a verdade é mais do que objeto da razão, é o alimento da alma.
Essa aproximação entre saber e sabor também alcança o Direito. Um jurista pode dominar códigos, precedentes e doutrinas, mas, se lhe faltar o sabor da justiça, sua ciência torna-se árida. O direito não se realiza apenas pela exatidão técnica; ele exige sensibilidade humana. A letra da lei necessita do sabor da equidade, da prudência e da compaixão. O conhecimento jurídico sem humanidade converte-se facilmente em mero formalismo.
Na educação acontece o mesmo. O bom mestre não apenas transmite conteúdos; desperta o gosto pelo conhecimento. O aluno que descobre o sabor do aprender continuará estudando por toda a vida. A curiosidade é o tempero da inteligência.
Talvez por isso as grandes descobertas sejam sempre acompanhadas de uma alegria discreta. Há um prazer intelectual em compreender aquilo que antes parecia obscuro. O saber, quando autêntico, possui um sabor próprio, o sabor da verdade encontrada.
Em tempos de excesso de informações e escassez de reflexão, vale recordar que nem todo acúmulo de dados produz sabedoria. O conhecimento que não pode ser degustado, refletido e incorporado permanece superficial. Apenas o saber que ganha sabor transforma a pessoa.
No fim das contas, viver é aprender a saborear a verdade. Porque o conhecimento mais elevado não é aquele que apenas ilumina a mente, mas o que também alimenta o coração.
Talvez seja essa a mais bela lição escondida na própria línguística, porquanto quem verdadeiramente sabe é aquele que aprendeu a saborear a vida. Em latim “sapere” quer dizer ter sabor e bom senso (ser sábio). Em italiano “sapere” é saber enquanto “sapore” significa sabor. No francês, é decisiva a mesma origem: “savoir” (saber) e “saveur” (sabor).
Como afirma Ariadna Kastri, o sábio é, literalmente, o que provou, o degustador da vida. Isso não é uma curiosidade de dicionário, é uma teoria completa da educação, em duas sílabas. Saber e sabor são quase a mesma palavra. Conhecer não é armazenar informação, do mesmo jeito que ler o rótulo não é beber o vinho. Assim, para compreender o conhecimento, entenda-se que só conhece verdadeiramente aquele que “prova” (ou “degusta”) a realidade,
De quem aprende, de quem ensina, do próprio conteúdo ou do próprio saber que sente o gosto do conhecer, a sabedoria não nasce apenas da inteligência, ela resulta da experiência assimilada.
A vida tem gosto e quando alguém “tem bom gosto”, queremos referir ao seu discernimento, à sua sabedoria existencial.
Em clara formulação filosófica do conhecimento, o saber é o sabor da inteligência; o sabor é o saber da experiência adquirida.
Jones Figueirêdo Alves é desembargador emérito do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), advogado e parecerista




